Maricá/RJ,

Allan da Rosa apresenta a escritora Conceição Evaristo. No programa "Entrelinhas", da TV Cultura



Conceição Evaristo - 1st Conference of Brazilian Women Writers in New York Brazilian Endowment for the Arts



1st Conference of Brazilian Women Writers in New York
Brazilian Endowment for the Arts

Eu não sei cantar


A escritora CONCEIÇÃO EVARISTO critica os estereótipos artísticos que pairam sobre a mulher negra e defende a educação como a melhor ferramenta de acesso à igualdade.
Como qualquer escritora, Conceição Evaristo é uma mulher que conta histórias - aquelas que vem ouvindo desde criança, que testemunhou ao longo de seus 60 anos de vida, histórias alheias que se enquadram à sua realidade. Mas ela não é qualquer escritora. Ser mulher, negra e escrever sobre essa condição faz torcer três vezes o nariz de editores e leitores brasileiros, culturalmente acostumados a fechar os olhos diante dessa realidade, apagada até dos livros de história. 

4 Vozes Femininas de África: Odete Semedo, Vera Duarte, Sónia Sultuane e Conceição Evaristo


Mesa redonda "4 Vozes Femininas de África: Odete Semedo, Vera Duarte, Sónia Sultuane e Conceição Evaristo" realizada na UFRJ em 09/08/2011 com três escritoras Africanas - Odete Semedo, Vera Duarte, Sónia Sultuane - e uma brasileira - Conceição Evaristo.

Um retrato das afrodescendestes



Escritora tem textos publicados na Europa.




"Ponciá Vicêncio" é o romance de estreia de Conceição Evaristo, apesar de ter sido produzido há 15 anos. "Escrevi o livro em 1988...


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Conceição Evaristo no CCBH


Negras Memórias Femininas




"A ficção a partir do universo negro pode revelar a fragilidade das relações raciais"
                                      Conceição Evaristo
                                                                            
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Programa Política da Cor – Boletim nº 31 abril/maio 2007


Entrevista com Maria da Conceição Evarisrto de Brito

Para ler a entrevista completa clique aqui



Conceição Evaristo por Conceição Evaristo



Sou mineira, filha dessa cidade, meu registro informa que nasci no dia 29 de novembro de 1946. Essa informação deve ter sido dada por minha mãe, Joana Josefina Evaristo, na hora de me registrar, por isso acredito ser verdadeira. Mãe, hoje com os seus 85 anos, nunca foi mulher de mentir. Deduzo ainda que ela tenha ido sozinha fazer o meu registro, portando algum documento da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Uma espécie de notificação indicando o nascimento de um bebê do sexo feminino e de cor parda, filho da senhora tal, que seria ela. Tive esse registro de nascimento comigo durante muito tempo. Impressionava-me desde pequena essa cor parda. Como seria essa tonalidade que me pertencia? Eu não atinava qual seria. Sabia sim, sempre soube que sou negra. 
_________________________________________

* Depoimento concedido durante o I Colóquio de Escritoras Mineiras, realizado em maio de 2009, na Faculdade de Letras da UFMG. 
Texto publicado no Portal Literafro da UFMG 
Texto publicado em Escritoras Mineiras – Poesia, ficção, memória. (org) Constância Lima Duarte, Belo Horizonte, FALE/UFMG, 2010.

Entrevista publicada no livro Malungos na escola



Entrevista publicada no livro Malungos na escola - questões sobre culturas afrodescendentes e educação - Edimilson de Almeida Pereira, São Paulo, Paulinas, 2007. 

EAP: Em suas palestras, você costuma dizer que a convivência em família, especialmente com sua mãe, foi decisiva para lhe despertar o gosto pela arte de contar histórias. Como foi essa convivência? E que histórias você ouviu de sua mãe? Sim e gosto de afirmar, eu não nasci rodeada de livros, nasci rodeada de palavras. Na minha casa, sempre falamos muito, parece que falar tinha efeito diluidor da pobreza, a miséria material que nos cercava. Minha mãe, mulher de silêncio, para as suas dores íntimas, nos contava histórias, cantava conosco, fazia brincadeiras, construía nossas bonecas, bruxas de pano e de capim. Não tínhamos rádio e a televisão, acho que nem existia naquele tempo. Essas brincadeiras, que aconteceram ainda na minha primeira infância, mas são tão vivas em minha recordação.

ESCREVIVÊNCIAS DA AFRO-BRASILIDADE: HISTÓRIA E MEMÓRIA.



“Quando a memória vai apanhar bocados de madeira seca, traz a lenha que muito bem lhe apraz...”
[1]

                         Birago Diop



A história
do negro
é um traço
num abraço
de ferro e fogo.
[2]

                          Adão Ventura

“Toda história é sempre

 sua invenção
Qualquer memória é sempre
uma invasão do vazio”
[3]

                                   Leda Martins


Navegar nas águas da História é navegar nas águas da certeza (pelo menos é o que dizem os historiadores tradicionais). Navegar nas águas da memória é enfrentar as correntezas do mistério, do não provável, do impreciso. Entretanto, História e memória se confundem como elementos constitutivos de vários textos da literatura afro-brasileira. Como fenômenos distintos se entrecruzam, se confrontam, se complementam, ou mesmo, substituem um ao outro. Vários são os textos em que a memória, recriando um passado ocupa um espaço vazio, deixado pela ausência de informações históricas mais precisas. E esse passado recriado passa ser a constantemente amalgamado ao tempo e à história presentes. Nesse sentido o passado surge como esforço de uma memória que está a construí-lo no presente. Tanto o passado remoto, como o passado recente, assim como o quotidiano, a matéria do hoje e do agora, tudo tentará preencher as ausências premeditadas e apagar as falas distorcidas de uma narrativa oficial, que poucas vezes se apresenta sob a ótica dos dominados.

[1] DIOP, Birago, “As Mamas” in Os contos de Amadou Koumba, Coleção Vozes de África, Edição 70, Lisboa, Portugal, 1979, p.29
[2] VENTURA, Adão, Texturaafro, Editora Lê, 1992, Parte III
[3] MARTINS, Leda. fragmentos do poema Solstício, in Callallo, Vol.18,number, 4,p.986

Gênero e Etnia: uma escre(vivência) de dupla face.


Conceição Evaristo

Escre(vi)(vendo)me: ligeiras linhas de uma auto-apresentação.

Do tempo/espaço aprendi desde criança a colher palavras. A nossa casa vazia de móveis, de coisas e muitas vezes de alimento e agasalhos, era habitada por palavras. Mamãe contava, minha tia contava, meu tio velhinho contava, os vizinhos amigos contavam. Eu, menina repetia, inventava. Cresci possuída pela oralidade, pela palavra. As bonecas de pano e de capim que minha mãe criava para as filhas nasciam com nome e história. Tudo era narrado, tudo era motivo de prosa-poesia.




Dos sorrisos, dos silêncios e das falas.


Conceição Evaristo 

Resumo: A trajetória existencial das mulheres negras, tanto na África como na diáspora, se considerada em termos coletivos surge marcada por lutas, sofrimentos e resistência. Entretanto, essas as mulheres, na maioria das vezes, retiram do próprio cotidiano dolorido não só a subsistência no plano material, como também inventam adequados suportes psicológicos para se fortalecerem e se colocarem como esteio de suas famílias e muitas vezes das comunidades nas quais se acham inseridas. 

Palavras chaves: mulher negra, silêncio, silenciamento e fala.


Assessoria e consultoria em assuntos Afro-brasileiros, Literatura, Educação e Gênero



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Insubmissas lágrimas de mulheres



Insubmissas lágrimas de mulheres, contos, 
Editora Nandyala, Belo Horizonte, 2011.
(Coleção Vozes da Diáspora Negra – Vol.7)  
ISBN:978-85-61191-57-3


A antologia Insubmissas lágrimas de mulheres é composta de 13 contos, cujas histórias têm como protagonistas mulheres negras. De dentro da cena, vozes-mulheres explicitam suas dores, anseios, temores, mas, antes de tudo revelam a imensa capacidade de se retirem do lugar do sofrimento e inventarem modos de resistência. Uma intima fusão entre as personagens, a voz ficcional da narradora e a voz autoral, marca o processo criativo dos textos e afirma o projeto literário de Conceição Evaristo, o de traçar uma escrevivência.

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Ponciá Vicencio (publicação no exterior)



Title: Poncià Vicenzo
Author: Conceição Evaristo
Translated by: Paloma Martinez-Cruz
ISBN: 978-0-924047-3

história de Ponciá Vicêncio, contada no romance do mesmo nome, descreve os caminhos , os sonhos e os desencantos da protagonista, que parte de sua terra natal para a cidade, buscando novas formas de vida. Discutindo a questão de identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô, o texto estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginário. 
O romance apresenta uma trama psicológica e emocional complexa retratando as relações sociais e raciais da sociedade brasileira. Na narrativa sobressai o sofrimento das mulheres, como resultado de condições opressoras em que a maioria vive. Entretanto, são destacadas a fortaleza e a criatividade das personagens femininas, na busca de afirmação de vida.

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Ponciá Vicencio (publicação no Brasil)



Ponciá Vicêncio, romance, 
Mazza Edições, Belo Horizonte, 2003 
ISBN 85-7160-261-1 9788571 602618

A história de Ponciá Vicêncio, contada no romance do mesmo nome, descreve os caminhos , os sonhos e os desencantos da protagonista, que parte de sua terra natal para a cidade, buscando novas formas de vida. Discutindo a questão de identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô, o texto estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginário. 
O romance apresenta uma trama psicológica e emocional complexa retratando as relações sociais e raciais da sociedade brasileira. Na narrativa sobressai o sofrimento das mulheres, como resultado de condições opressoras em que a maioria vive. Entretanto, são destacadas a fortaleza e a criatividade das personagens femininas, na busca de afirmação de vida.

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Poemas da recordação e outros movimentos

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Becos da Memória


Mazza Edições , Belo Horizonte, 2006, 168,p. 
ISBN 85-7160-375-8   788571 603752


Romance misto de testemunho e ficção. A autora retoma suas memórias de menina, narrando, anos mais tarde, o cotidiano de uma favela, em que seus habitantes sobrevivem entre os sentimentos de impotência e esperança, diante do processo de desfavelamento em que são submetidos, no final da década de 60.

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Conçeição Evaristo at City University of New York 2007



 Celebrating the publication of her novel "Ponciá Vicencio" in English translation

A escritora Conceição Evaristo fala sobre o negro na literatura brasileira


A autora apresenta de maneira breve sobre como a literatura brasileira ficcionaliza o negro, com destaque na mulher negra.

Josiane Acosta declamando poesia no lançamento do livro de Conceição Evaristo



Josiane Acosta declamou poesia e emocionou escritora no lançamento do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres de Conceição Evaristo- editora Nandyala, Belo Horizonte (2011). O lançamento do livro foi dia 1º de março de 2011 no auditório Milton Santos, CEAO/UFBA. SALVADOR-BA.

Entrevista com Conceição Evaristo VII COPENE 2012

Conceição Evaristo Momentos em Nova York

DA GRAFIA-DESENHO DE MINHA MÃE UM DOS LUGARES DE NASCIMENTO DE MINHA ESCRITA


  Depoimento

                                                      Conceição Evaristo 

Talvez o primeiro sinal gráfico, que me foi apresentado como escrita, tenha vindo de um gesto antigo de minha mãe. Ancestral, quem sabe? Pois de quem ela teria herdado aquele ensinamento, a não ser dos seus, os mais antigos ainda? Ainda me lembro, o lápis era um graveto, quase sempre em forma de uma forquilha, e o papel era a terra lamacenta, rente as suas pernas abertas. Mãe se abaixava, mas antes cuidadosamente ajuntava e enrolava a saia, para prendê-la entre as coxas e o ventre. E de cócoras, com parte do corpo quase alisando a umidade do chão, ela desenhava um grande sol, cheio de infinitas pernas. Era um gesto solene, que acontecia sempre acompanhado pelo olhar e pela postura cúmplice das filhas, eu e minhas irmãs, todas nós ainda meninas. Era um ritual de uma escrita composta de múltiplos gestos, em que todo corpo dela se movimentava e não só os dedos. E os nossos corpos também, que se deslocavam no espaço acompanhando os passos de mãe em direção à página-chão em que o sol seria escrito. Aquele gesto de movimento-grafia era uma simpatia para chamar o sol. Fazia-se a estrela no chão. 
Na composição daqueles traços, na arquitetura daqueles símbolos, alegoricamente ela imprimia todo o seu desespero. Minha mãe não desenhava, não escrevia somente um sol, ela chamava por ele, assim como os artistas das culturas tradicionais africanas sabem que as suas máscaras não representam uma entidade, elas são as entidades esculpidas e nomeadas por eles. E no círculo-chão, minha mãe colocava o sol, para que o astro se engrandecesse no infinito e se materializasse em nossos dias. Nossos corpos tinham urgências. O frio se fazia em nossos estômagos. Na nossa pequena casa, roupas molhadas, poucas as nossas e muitas as alheias, isto é, as das patroas, corriam o risco de mofarem acumuladas nas tinas e nas bacias. A chuva contínua retardava o trabalho e pouco dinheiro, advindo dessa tarefa, demorava mais e mais no tempo. Precisávamos do tempo seco para enxugar a preocupação da mulher que enfeitava a madrugada com lençóis arrumados um a um nos varais, na corda bamba da vida. Foi daí, talvez, que eu descobri a função, a urgência, a dor, a necessidade e a esperança da escrita. É preciso comprometer a vida com a escrita ou é o inverso? Comprometer a escrita com a vida? 
Mais um momento, ainda bem menina, em que a escrita me apareceu em sua função utilitária e às vezes, até constrangedora, era no momento da devolução das roupas limpas. Uma leitura solene do rol acontecia no espaço da cozinha das senhoras: 
4 lençóis brancos, 
4 fronhas, 
4 cobre-leitos, 
4 toalhas de banho, 
4 toalhas de rosto, 
2 toalhas de mesa, 
15 calcinhas, 
20 toalhinhas, 
10 cuecas, 
7 pares de meias, 
etc, etc, etc. 
As mãos lavadeiras, antes tão firmes no esfrega-torce e no passa-dobra das roupas, ali diante do olhar conferente das patroas, naquele momento se tornavam trémulas, com receio de terem perdido ou trocado alguma peça. Mãos que obedeciam a uma voz-conferente. Uma mulher pedia, a outra entregava. E quando, eu menina testemunhava as toalhinhas antes embebidas de sangue, e depois, já no ato da entrega, livres de qualquer odor ou nódoa, mais a minha incompreensão diante das mulheres brancas e ricas crescia. As mulheres de minha família, não sei como, no minúsculo espaço em que vivíamos, segredavam seus humores íntimos. Eu não conhecia o sangramento de nenhuma delas. E quando em meio às roupas sujas, vindas para a lavagem, eu percebia calças de mulheres e minúsculas toalhas, não vermelhas, e sim sangradas do corpo das madames, durante muito tempo pensei que as mulheres ricas urinassem sangue de vez em quando. 
Foram, ainda, essas mãos lavadeiras, com seus sois riscados no chão, com seus movimentos de lavar o sangue intimo de outras mulheres, de branquejar a sujeira das roupas dos outros, que desesperadamente seguraram em minhas mãos. Foram elas que guiaram os meus dedos no exercício de copiar meu nome, as letras do alfabeto, as sílabas, os números, difíceis deveres de escola, para crianças oriundas de famílias semi-analfabetas. Foram essas mãos também que folheando comigo, revistas velhas, jornais e poucos livros que nos chegavam recolhidos dos lixos ou recebidos das casas dos ricos, que aguçaram a minha curiosidade para a leitura e para a escrita. Daquelas mãos lavadeiras recebi também cadernos feitos de papeis de embrulho de pão, ou ainda outras folhas soltas, que, pacientemente costuradas, evidenciavam a nossa pobreza, e distinguiam mais uma de nossas diferenças, em um grupo escolar, que nos anos 50 recebia a classe média alta belorizontina. 
Das mãos lavadeiras, recebi ainda listas de mantimentos, palavras cifradas, preços calculados para não ultrapassar o nosso minguado orçamento (sempre ultrapassavam) e lá ia eu, menina, às tendinhas, aos armazéns e às padarias perto da favela para fazer compras. Nesse exercício de quase adivinhar os textos escritos produzidos por minha família, quem sabe o meu aprendizado para um dia caminhar pelas vias da ficção... 
Ainda, uma de minhas tias, a que me criou, tinha por hábito de anotar resumidamente em folhas de papéis, datas e acontecimentos importantes, desde fatos relacionados à economia doméstica, a acontecimentos sociais ou religiosos. Anotações familiares como: 
“A nossa última galinha d’angola fugiu semana passada, isto é no final do mês de novembro”. 
“No dia 13 de dezembro, pus a galinha garnisé para chocar sobre nove ovos”. 
“Dona Etelvina de Seu Basílio voltou para São Paulo no dia 15 de agosto de 1965”. 
“Já paguei duas mensalidades para ajudar na festa da Capela do Rosário”. 
“Maria Inês, minha sobrinha ficou noiva no dia 22 de junho de 1969”. 
E á medida que eu crescia e os meus conhecimentos também, alguns desses eventos passaram a ser registrados por mim, como também passou a ser de minha responsabilidade cuidar de meus irmãos menores na escola, acompanhar seus deveres, ir às reuniões escolares e transmitir os resultados para mim mãe. De meus irmãos passei a acompanhar os deveres das crianças menores vizinhas. No pequeno quintal de nossa casa, debaixo das árvores, improvisei uma sala de aula. Das moedas, que me eram dadas pelas mães gratas pelo desenvolvimento de seus filhos na escola, surgiam meu primeiro salariozinho. Riqueza que me permitia comprar ora o pão diário, ora açúcar, ora o leite do irmãozinho menor, ora um caderno para mim, e às vezes algum livrinho, (revistinhas infantis, gibis, que não sei porque eu considerava como sendo livro) ou ainda obter uma alegria maior: doces, doces, doces... 
Mas digo sempre: creio que a gênese de minha escrita está no acumulo de tudo que ouvi desde a infância. O acumulo das palavras, das histórias que habitavam em nossa casa e adjacências. Dos fatos contados a meia-voz, dos relatos da noite, segredos, histórias que as crianças não podiam ouvir. Eu fechava os olhos fingindo dormir e acordava todos os meus sentidos. O meu corpo por inteiro recebia palavras, sons, murmúrios, vozes entrecortadas de gozo ou dor dependendo do enredo das histórias. De olhos cerrados eu construía as faces de minhas personagens reais e falantes. Era um jogo de escrever no escuro. No corpo da noite. 
Na origem da minha escrita ouço os gritos, os chamados das vizinhas debruçadas sobre as janelas, ou nos vãos das portas contando em voz alta uma para outras as suas mazelas, assim como as suas alegrias. Como ouvi conversas de mulheres! Falar e ouvir entre nós, era a talvez a única defesa, o único remédio que possuíamos. Venho de uma família em que as mulheres, mesmo não estando totalmente livres de uma dominação machista, primeira a dos patrões, depois a dos homens seus familiares, raramente se permitiam fragilizar. Como “cabeça” da família, elas construíam um mundo próprio, muitas vezes distantes e independentes de seus homens e mormente para apoiá-los depois.Talvez por isso tantas personagens femininas em meus poemas e em minhas narrativas? Pergunto sobre isto, não afirmo. 
Afirmo, porém que foi do tempo/espaço que aprendi desde criança a colher as palavras. Não nasci rodeada de livros, do meu berço trago a propensão, o gosto para ouvir e contar histórias. A grande oportunidade para a leitura constante me chegou, quando eu, já quase mocinha tinha a autonomia para ir e vir a Biblioteca Pública de Belo Horizonte, casa-tesouro, em que uma das minhas tias se tornou servente. 
Se a leitura desde a adolescência foi para mim um meio, uma maneira de suportar o mundo, pois me proporcionava um duplo movimento de fuga e inserção no espaço em que eu vivia, a escrita também desde aquela época, abarcava estas duas possibilidades. Fugir para sonhar e inserir-se para modificar. Essa inserção para mim pedia a escrita. E se inconscientemente desde pequena, nas redações escolares eu inventava outro mundo, pois dentro dos meus limites de compreensão, eu já havia entendido a precariedade da vida que nos era oferecida, aos poucos fui ganhando uma consciência. Consciência que compromete a minha escrita como um lugar de auto-afirmação de minhas particularidades, de minhas especificidades como sujeito-mulher-negra. 
E retomando a imagem da escrita diferencial de minha mãe, que surge marcada por um comprometimento de traços e corpo, (o dela e nossos) e ainda a um de diário escrito por ela, volto ao gesto em que ela escrevia o sol na terra e imponho a mim mesma uma pergunta. O que levaria determinadas mulheres, nascidas e criadas em ambientes não letrados, e quando muito, semi-alfabetizados, a romperem com a passividade da leitura e buscarem o movimento da escrita? 
Tento responder. Talvez, estas mulheres (como eu) tenham percebido que se o ato de ler oferece a apreensão do mundo, o de escrever ultrapassa os limites de uma percepção da vida. Escrever pressupõe um dinamismo próprio do sujeito da escrita, proporcionando-lhe a sua auto-inscrição no interior do mundo. E, em se tratando de um ato empreendido por mulheres negras, que historicamente transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados pela cultura das elites, escrever adquire um sentido de insubordinação. Insubordinação que pode se evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere “as normas cultas” da língua, caso exemplar o de Carolina Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria narrada. 
A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar os da casa grande” e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.[1]

                                                                                      Rio de Janeiro Agosto de 2005 

[1] Publicado no livro Representações Performáticas Brasileiras: teórias, práticas e suas interfaces. (org) Marcos Antônio Alexandre, Belo Horizonte, Mazza Edições, 2007, p 16-21.


*** Texto apresentado na Mesa de Escritoras Afro-brasileiras, no XI Seminário Nacional Mulher e Literatura/II Seminário Internacional Mulher e Literatura, Rio de Janeiro, 2005